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Amizade

Ali Kamel presta homenagem a Cristiana Lôbo

A morte da jornalista é um golpe que ele não esperava

Fábia Oliveira EM OFF
Fábia OliveiraColunista do EM OFF

A jornalista e colunista Cristiana Lôbo, que faleceu nesta quinta-feira (11), aos 63 anos, ganhou uma bela homenagem de Ali Kamel. Em seu longo texto, ele conta que foi tomado por uma tristeza ao receber a notícia da morte da amiga, que a conheceu quando a profissional tinha apenas 34 anos.

Bastante abalado, Kamel que é diretor de jornalismo da Rede Globo de Televisão, afirma que Lôbo era completa, zelosa, correta e apaixonada pela profissão.

Confira a homenagem do jornalista para Lôbo.

Cristiana Mendes Lobo

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Num momento de tantas perdas, a morte de Cristiana Mendes Lôbo é mais um golpe que nenhum de nós esperava. Uma profissional completa, correta, zelosa, apaixonada ao mesmo tempo pelo furo e pela análise. Competitiva, como devem ser repórteres de campo. Generosa ao gostar de dividir sua experiência com os mais jovens, como devíamos ser todos nós.

Eu conheci a Cris em 1991 em Brasília, essa grande escola, quando dirigi a sucursal do Globo. O primeiro presidente eleito depois do golpe de 1964 estava no Planalto havia pouco mais de um ano e já enfrentava uma crise política sem tamanho, a CPI do PC. Aquela redação tinha um time maravilhoso, foi um trabalho intenso, todos se ajudando, todos dando muitos furos. Ali, fiz amigos da vida inteira, amizades que me acompanham até hoje, para minha felicidade. Hoje me lembrei com saudade de dois amigos, expoentes daquele time, que se foram: Rodolfo Fernandes e Jorge Bastos Moreno, sobre quem já escrevi longamente. E, hoje, para nossa tristeza, Cris.

Ela tinha apenas 34 anos, mas já agia como uma veterana. Ela e Moreno, cada um ao seu estilo, se complementavam. Eram compadres na vida real e, apesar da disputa pelos furos e de brigas eventuais, compadres também na vida profissional. Somados, os acessos que um e outro tinham juntos às fontes davam um poder de fogo enorme à dupla. Os dois sob a batuta do Rodolfo, cuja voz serena e estilo calmo não conseguiam esconder a cobrança por apurações exclusivas.

Eu poderia contar muitos episódios, mas vou me contentar com um. Às vésperas do impeachment de Collor, o PSDB tinha uma ala que ainda era reticente quanto a apoiar ou não o afastamento do presidente. Os políticos do partido se reuniram então para uma reunião a portas fechadas, para discutir o tema. Imprensa barrada na porta, menos a Cris, que ainda conseguiu me levar com ela. Foi quando pudemos registrar Mario Covas enquadrando o partido e colocando-o unido a favor do impeachment. As portas se abriam para Cris.

Em 1997, ela veio para a GloboNews e o que, a princípio, era uma colaboração eventual, logo se tornou uma participação permanente. Foram os furos e o poder de análise que fizeram de Cris uma das principais atrações do canal. Em 2001, eu desembarquei por aqui e retomamos o trabalho juntos (antes, ao deixar o Globo, ela se tornou colunista do Estadão, e depois do IG). E a amizade também.

Hoje, ao receber a notícia de sua morte, fui tomado de uma tristeza imensa, nesses tempos de tantas perdas. Além do trio Rodolfo, Moreno e Cris, pensei no Xexéo, cuja morte ela lamentou tanto em conversas comigo. Anteontem, à mesa do almoço, eu estranhei que houvesse já um tempo que a Cris não mandava notícias, e confessei que estava reticente em puxar conversa, temia alguma coisa. Diagnosticada em 2019, Cris se tratou e parecia ter superado a doença. Há um ano, teve uma recaída, mas não esmoreceu. Reiniciou o tratamento, sempre com otimismo. No almoço anteontem, ante o meu estranhamento, Miguel me disse que tinha falado com ela ao telefone uns vinte dias atrás. E que ela repetira o que dizia sempre: muitos sustos, mas confiante. Era o que também me contava nas nossas conversas: voltaria logo. Fiquei um pouco mais tranquilo. Ano passado, me mandou o recorte de jornal que a Letícia, filha do Rodolfo, postou, acho que no Instagram. Era um manifesto intitulado “Jornalistas pelas Diretas, Já”, de 6 de abril de 1984, publicado no Correio Brasiliense. Legenda da Letícia: “Papai pelas diretas, com Moreno, Eliane Cantanhêde, Cris Lôbo e grande elenco”. Era a Cris orgulhosa do seu papel de cidadã no fim da ditadura. Nesse ano, bateu a saudade, e trocamos muitas fotos do Moreno. Vaidosa, escreveu assim sobre uma delas, em que aparecia junto a ele, charmosa: “Não sou boba nem nada, né? Eu, bem novinha”.

Todas essas perdas mexeram comigo, mexeram com todos nós. Um amigo me mandou um e-mail carinhoso me consolando. Eu contei brevemente a minha história com ela, com Rodolfo, com Moreno e fiquei com o coração apertado porque pessoas importantes de um momento querido da minha vida já não estão aqui. E lamentei: “Além da tristeza, dá um vazio. Tudo vai ficando apenas memória”.

Essa frase, porém, me deu algum conforto. E quero dividir com vocês o motivo, para que vocês também se confortem. Ela me trouxe à mente o último episódio da série Shtisel, ambientada numa comunidade judaica ultraortodoxa em Jerusalém. O patriarca está sentado à mesa junto ao irmão e ao filho mais novo. Lamentam a perda de pessoas queridas (personagens da série, de algum modo). O patriarca então cita Bashevis Singer (na verdade, os roteiristas apenas se inspiraram no autor, a partir de um texto do livro Shosha, mas é bonito e verdadeiro de qualquer maneira):

“Bashevis entendeu uma coisa linda. Os mortos não vão a lugar algum. Eles estão todos aqui. Todo homem é um cemitério. Um cemitério de verdade, em que estão todos os avós, o pai, a mãe, a mulher, os filhos [e eu acrescento: os amigos]. Todos, todos estão aqui o tempo inteiro. Vocês entenderam”? (e a mesa em que estão começa a ser tomada pelos personagens que já se foram).

Para além dos textos, das reportagens, das fotos em nossos arquivos, enquanto houver memória, nenhum amigo desaparece.

Estarão todos sempre aqui. Conosco.

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