Exclusivo‘Feliz por esse momento tão potente que tô vivendo’, dispara Lorena Comparato sobre carreira

A atriz é uma das protagonistas da série 'Rensga Hits', que teve sua estreia nesta quinta-feira (4) no Globoplay

Fábia Oliveira
Colunista do EM OFF

‘Rensga Hits’ já está disponível na plataforma Globoplay. Um dos nomes da série, a atriz Lorena Comparato dá vida à ‘Gláucia Figueira’, uma cantora sertaneja que promete animar os telespectadores. Em um papo com a coluna, Lorena abriu o coração e falou sobre o trabalho, suas inspirações e os próximos passos na carreira, além do acolhimento que recebeu das pessoas após revelar ter passado por um episódio de abuso sexual na infância. 

‘Rensga Hits’ vem aí e você interpretará Gláucia Figueira. O que o público pode esperar da sua personagem?

Eu tô muito animada! O público pode esperar muito babado e confusão de Gláucia Figueira. Sério. Que personagem hilária! Gláucia é uma das protagonistas da série – junto com Alice Wegmann, Deborah Secco e Fabiana Karla – e eu particularmente acho ela apaixonante! Cantora sertaneja, o sonho dela é ser famosa e ela é muito determinada. Vaidosa, cantora em ascensão e 100% ligada nos seguidores e nas redes sociais. Ela tem um jeito muito seguro de si, só que ela, na verdade, esconde muitas mágoas. Livre e destemida, adora uma confusãozinha. Mas o que ela mais gosta mesmo, é de fama. Me diverti demais fazendo essa personagem. Gláucia gosta de chamar atenção e eu espero que ela consiga, porque ela me deu muito trabalho pra construir! Agora, tem que valer a pena. [risos]

A série retrata o universo do feminejo. Você já tinha feito algo parecido antes?

Nunca tinha feito algo parecido com ‘Rensga’, aliás, não conheço nada parecido com essa série. Me parece um grande mix de coisas muito gostosas, sabe? Série de comédia, com drama, com música boa, tramas geniais, gente fera e gritaria?! Eu acho essa série apaixonante e acho que ela vem pra dar uma mexida boa nesse nosso país. Sou especialmente apaixonada pela dramaturgia da Renata Corrêa. As tramas são muito boas, já deu pra ver um pouco pelos teasers, né? É abandono no altar, é roubo de música, é traição a torto e a direito, como infelizmente é a vida. Fazer essa série foi um grande privilégio e eu aproveitei realmente cada segundo dessa oportunidade!

Quais foram suas principais inspirações para interpretar a Gláucia?

Me inspirei muito nas nossas mulheres poderosas e potentes do sertanejo como a saudosa Marília Mendonça, Maiara e Maraisa, Paula Fernandes e Naiara Azevedo. Mas sempre confesso que também bebi muito na fonte de grandes artistas de palco como Anitta, Beyoncé, Taylor Swift, Shania Twain, etc. Do nosso sertanejo, ao pop, das baladas ao country americano e pincelei várias tintas nessa personagem já tão colorida. Me inspirei muito também em figuras reais que nos acompanharam durante a feitura da série. Gis Matos, cantora, fonoaudióloga e preparadora vocal, foi nossa professora de canto e com certeza uma das minhas grandes musas para Gláucia. Bibi, cantora e compositora de várias músicas do ‘Rensga’, também foi uma grande inspiração para minha personagem. Gláucia são todas essas mulheres, mas também é muito única. Espero que as pessoas se apaixonem por ela da forma como eu me apaixonei e me diverti.

Ao mesmo tempo que estreia em ‘Rensga Hits’, você também estará na série ‘Não foi minha culpa’. As séries falam de temáticas diferentes, mas ambas abordam questões do universo feminino. O que aprendeu com elas?

Acho que por muito tempo nosso mercado marcou tramas femininas como de nicho e eu sou completamente contra isso. Dramaturgias femininas podem ser tão universais quanto as masculinas e ambas as séries são para todos os públicos. Há mais de 10 anos faço parte de um núcleo criativo chamado ‘Cia de 4’ com Andrezza Abreu, Anita Chaves e Karina Ramil e nosso principal foco sempre foram as temáticas femininas e plurais. A verdade é que eu amaria convidar principalmente os homens para assistirem essas séries: para se informarem sobre assédio e feminicídio em ‘Não Foi Minha Culpa’ e tomarem ciência da responsabilidade deles quando o assunto é violência, e também vangloriarem histórias de mulheres potentes como em ‘Rensga’. Desde muito cedo luto pela igualdade de gênero, sem nem saber que isso era ativismo. Para eu estar onde estou – usando calça, votando e sendo um ser livre – muita mulher teve que lutar e, por isso, luto hoje pelas minhas futuras irmãs, amigas e colegas.

Realmente essas duas séries são muito opostas quase: uma é um drama profundo e dilacerante, a outra, mesmo tendo suas profundidades, é costurada com muita música e comédia. Aprendi muito com as duas. Me sinto às vezes vivendo uma vida inteira a cada trabalho e essas vidas deixam marcas, cicatrizes, que eu carrego comigo pra sempre. Quando cheguei pra fazer a ‘Gláucia’, tinha acabado de fazer a ‘Priscila’ e sua profundidade me ajudou muito a verticalizar a cantora sertaneja que poderia cair no óbvio de ser uma agro-paty metida e mimada. Mas não, ‘Gláucia’ é muito mais que isso e ela também me ajudou a me recuperar do abismo que eu entrei e me entreguei pra fazer a ‘Priscila’.

Com o ‘Não Foi Minha Culpa’ aprendi que temos que gritar sobre o que passamos diariamente sendo mulheres, falar das violências, doa a quem doer, e com essa resistência, mudar. Com ‘Rensg’a eu aprendi que depois da dor, existe a força, a perseverança e o brilho. Que sucesso pode sim surgir depois de muito sofrimento.

Recentemente, você também revelou já ter sofrido assédio. O que mudou na sua vida desde essa revelação? Você percebeu um acolhimento por parte das pessoas?

Sofri assédio a vida inteira e isso não foi uma novidade. Já havia falado algumas vezes sobre esse tema e acho que toda mulher sabe que sempre foi vítima também. A maioria das pessoas são vítimas de assédio moral, psicológico, emocional ou físico. Acho que me sinto muito mais aliviada de poder falar desse assunto abertamente e não sofrer tanto com o meu silêncio. É libertador falar, independente do que os outros vão pensar. Falo sobre o assunto como um serviço social mesmo, com toda responsabilidade que tenho como artista, de ter uma voz ouvida no mundo. Quero que possamos falar sobre esses assuntos para eles não precisarem se repetir e as pessoas não precisarem sofrer caladas e sozinhas.

Recebi muito acolhimento das minhas amigas, das minhas irmãs, do meu namorado, dos meus pais e de muitas pessoas na web. Foi importante demais ter pessoas ao meu lado que me amam e que sentiram orgulho de mim por falar. A parte que mais me doeu, foi como a maioria das pessoas já tinham passado por coisas muito parecidas ou piores. E a maioria não tem o apoio da família ou de entes queridos que acabam reprimindo a vítima. Acho que se criou uma possibilidade de falar sobre assuntos que anteriormente eram tabus, mas que ainda temos muito chão pela frente. Quem se incomoda com esse tipo de assunto e quer ignorar, acaba se tornando cúmplice e eu espero que essa sociedade doente realmente se cure e evolua. Tenho fé. Incentivo as pessoas que sofrem a falarem e procurarem ajuda. Eu conversei com várias pessoas até conseguir entender o que me acontece diariamente. É um trabalho árduo e desgastante, mas libertador. Procure ajuda sempre. E se não te ajudou, procure outra pessoa. Vale a pena.

Quais são os próximos passos de Lorena Comparato?

Nesse momento estou, não só lançando essas séries, mas dois filmes, filmando ‘Cine Holliúdy’ e tentando terminar meu mestrado. ‘RULE 34’ de Julia Murat estreia no grande Festival de Cinema de Locarno e é um prestígio gigante estar nesse filme com artistas como Sol Mirante, Lucas Andrade e Isabela Mariotto. O filme é ousado, artístico, político e participar de um festival internacional desses é pra poucos e eu tenho muito orgulho de todo elenco e equipe. ‘Meu Álbum de Amores’, de Rafael Gomes, também tá chegando em breve nos cinemas e é um filme muito doce e divertido com Gabriel Leone, Felipe Frazão, Carla Salles, Olivia Torres e um elenco delicioso. Tenho passado a maioria dos meus dias nos estúdios Globo gravando ‘Cine Holliúdy’. Acabamos de voltar de uma curta temporada no Ceará e foi realmente mágico, mas filmamos muito na cidade cenográfica de Pitombas – município fictício onde se passa a série.

‘Cine Holliúdy’ estreia dia 23 de agosto na ‘Globo’ e tá hilária. Até dezembro tô nessa série e depois, se a ‘Deusa’ quiser, emendo nas próximas temporadas das séries que eu já faço há mais tempo como ‘Impuros’ e ‘Rensga’ – já to torcendo pra ter mais temporadas dessas. No mais, tô que nem doida tentando terminar meu mestrado em Artes Cênicas que faço na Escola de Artes Célia Helena. Adoraria ter próximos passos, como férias e passar um longo tempo com meu namorado, mas não vejo isso acontecendo tão cedo. Fico aqui com saudades, mas exausta de tanto trabalhar. Feliz e grata por esse momento tão potente que tô vivendo.