polêmica

Neguinho da Beija-Flor é alvo de fala racista na Jovem Pan e é defendido pela escola

Zoe Martinez gerou indignação nas redes sociais ao fazer comentário sobre o sambista

Fábia Oliveira
Colunista do EM OFF

Neguinho da Beija-Flor completou 73 anos nesta quarta-feira (29), em meio a uma grande polêmica envolvendo seu nome. Ocorre que o sambista foi citado pela comentarista Zoe Martinez, durante o programa Morning Show, da Jovem Pan News, de uma forma que o público encarou como racista e a fala acabou gerando revolta nas redes sociais.

Enquanto tentava defender Nelson Piquet por ter usado uma expressão racista ao chamar Lewis Hamilton de ‘neguinho’, Zoe citou Neguinho da Beija-Flor como exemplo, e afirmou que ele “é negro de uma forma que, na escuridão, você só vê a gengiva”.

Para Zoe, se Piquet era considerado racista por falar a expressão ‘neguinho’, o cantor também deveria ser por utilizar a mesma expressão em seu nome artístico: “Então o Neguinho da Beija-Flor também é, né, racista? E olha que ele é negro, negro, que na escuridão a gente só vê a gengiva”, disse ela.

E não parou por aí: “E ele tem muito orgulho de ser negro, da cor da pele dele, tanto é que o nome dele é Luiz Antônio, alguma coisa assim, e ele é conhecido como o Neguinho da Beija-Flor porque ele tem orgulho da sua raça. Qual é o problema?”, acrescentou Zoe.

Para fechar sua defesa a Nelson Pique, Zoe gerou ainda mais indignação: “Ele não falou neguinho de uma forma pra atacar ou diminuir. Claro que não foi uma conversa informal, estava sendo entrevistado. Quantos ‘neguinhos’ gostam de ser chamados de ‘neguinhos’, com carinho? Qual é o problema disso? Quem vê racismo nesse tipo de fala, da forma que o Piquet colocou, é porque o racismo está nele”, disparou.

A Beija-Flor se manifestou para defender Neguinho e emitiu uma carta citando Zoe Matinez nominalmente. Confira na íntegra abaixo:

“Em defesa de Neguinho da Beija-Flor e contra o racismo:

Neguinho da Beija-Flor completa 73 anos nesta quarta-feira, com cinco décadas dedicadas ao Carnaval do Rio de Janeiro por meio da própria voz. Um ícone da maior festa popular do Brasil (e uma das mais relevantes do mundo), Neguinho não escapa do racismo. Nem aos 73. Nem no dia do próprio aniversário. Por isso, a Beija-Flor de Nilópolis vem a público repudiar as recentes menções ao artista em redes sociais e programa de rádio

Enquanto uma fala racista Nelson Piquet em relação a Louis Hamilton passou a circular na internet na última terça, usuários utilizaram erroneamente o nome de Neguinho da Beija-Flor para tentar amenizar a declaração do ex-piloto brasileiro (ele chamou o automobilista britânico de “neguinho” no ano passado e, agora, se desculpou).

O mesmo foi feito na terça pela apresentadora Zoe Martínez, do “The Morning Show”, da Rádio Jovem Pan. Elevando o grau do equívoco cometido por internautas, a profissional disse ao vivo: “Então, o Neguinho da Beija-Flor também é, né? Racista. E olha que ele é negro, negro, assim… que na escuridão a gente só vê a gengiva”.

As frases de Zoe Martínez revoltam e causam repugnância em familiares e admiradores do aniversariante do dia. O sentimento é o mesmo na escola em que ele construiu a brilhante carreira, reconhecida nacional e internacionalmente. Ninguém tem licença para falar por Neguinho da Beija-Flor. Para presumir ou ironizar sua postura diante da intolerância. Para sugerir que ele tenha sido condescendente ao assumir uma identidade que resignifica um modo preconceituoso de falar. Para embasar essa falsa percepção a partir da aparência do cantor.

Em comum, esses usuários das ferramentas digitais e Zoe Martínez têm o desconhecimento quanto à trajetória de Neguinho da Beija-Flor e a origem de sua alcunha. O músico exerce potente atuação contra o racismo e sempre utilizou o espaço conquistado para batalhar pela inclusão de pessoas negras na sociedade brasileira. Além de incentivar jovens talentos negros a cantarem ao seu lado, Neguinho cruzou a Marquês de Sapucaí inúmeras vezes entoando versos referentes à cultura e às religiões afro, com brados de resistência e fortalecimento.

A ocasião mais recente em que essa postura ficou nítida foi na folia deste ano, em abril, quando coube a Neguinho a tarefa de cantar com maestria o samba-enredo “Empretecer o pensamento é ouvir a voz da Beija-Flor”. Uma mensagem antirracista que se mostra ainda mais necessária diante daqueles que utilizam o apelido do sambista para justificar uma fala racista, feita por uma figura de grande alcance midiático.

Aliás, Neguinho da Beija-Flor, antes de adotar o nome da agremiação, era chamado de Neguinho da Vala. Era nos buracos da favela, com esgoto corrente que ele, ainda criança, caçava rãs, muçuns e cascudos — daí o reconhecimento entre aqueles com quem convivia. Como Neguinho, muitas outras crianças pretas e pobres ainda se divertem da mesma maneira. Em Nilópolis, elas ao menos crescem ao som da voz do cantor e incentivadas pelo exemplo dele. Não é assim no restante do Brasil.

O nome de Neguinho da Beija-Flor tem motivos de sobra para ser lembrado. Mas nunca em defesa de comportamentos racistas, inaceitáveis e indefensáveis. Ainda mais em grandes veículos de comunicação, a partir de comunicadores que, em tese, deveriam agir com responsabilidade e respeito. Os internautas em questão e Zoe Martínez precisam rever suas atitudes e, no mínimo, se desculparem com Neguinho da Beija-Flor”.