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bastidores da música

Wanessa Camargo fala da máfia das rádios: ‘Já fiz parte disso’

Cantora afirma que, apesar de saber a fórmula para fazer uma música deslanchar, não está mais disposta a se submeter ao esquema

Fábia Oliveira EM OFF
Fábia OliveiraColunista do EM OFF

Em entrevista ao podcast ‘Podpah’, Wanessa Camargo contou detalhes do que rola nos bastidores da indústria musical, mas que poucas pessoas sabem. A cantora citou a máfia das rádios, que faz artistas desembolsarem altas quantias para terem suas músicas tocadas.

“Isso é fato: hoje, para uma música para estourar no mercado, você precisa investir de R$ 300 mil a R$ 600 mil ou R$ 1 milhão, sabe? Isso é fato! São poucos os que conseguem hoje viralizar. É mais difícil, ainda mais para artista que já tem uma carreira. Para quem é mais novo é mais fácil”, explica a filha de Zezé Di Camargo.

Ela assume já ter se submetido ao esquema, mas garante não querer fazer mais parte dele. “É uma rebeldia minha também não entrar mais nesse jogo, porque eu fiz parte desse jogo e fico assustada de como as coisas têm que funcionar. Não é simplesmente pelo mérito, ou porque sua música é boa… Eu entendo que muitas rádios precisam viver disso, tá tudo certo. Mas ao mesmo tempo fico muito assustada com o quanto só piora, inflaciona, e aí você fala: ‘cara, vou pegar o dinheiro que construí minha vida inteira para arriscar nisso aqui?’.

O apresentador do podcast diz que, em uma conversa com o cantor e compositor Tierry, o artista afirmou que para qualquer um começar, principalmente no sertanejo, o investimento é de R$ 1 milhão pra cima. “É, eu falei 300 (mil), mas até dá pra fazer um bom trabalho com 300. Mas é surreal. […] Eu falei 300 mil porque é o mínimo que dá pra fazer um trabalho em rádio, apenas. Não tô falando de clipe, de colocar nos views que a galera coloca…”, diz Wanessa, que não se imagina mais gastando esse dinheiro para impulsionar suas músicas.

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“Então, quando eu penso em 300 mil, é um risco muito grande. Não consigo pensar em arriscar certas coisas. Cara, 300 mil reais muda a vida de um monte de gente. Muda a minha vida, pois são dois anos de vida que vai me sustentar. E eu vou colocar pra tocar a minha música?”, questiona.

Wanessa Camargo comenta ainda que hoje está em uma outra vibe em sua carreira. “Eu tenho uma paixão gigante pela minha carreira. Eu amo cantar, mas eu não amo mais algumas coisas que eu tenho que fazer pra cantar. Tipo lobby, estar em lugares que eu não me sinto respeitada, que eu sinto que estou sendo julgada de alguma forma… São 21 anos de carreira, não tenho mais ânsia de estar no topo, de ser a número 1”, garante.

“Eu tenho sempre a vontade muito grande de fazer o trabalho que eu fique feliz e que seja relevante. Não interessa pra mim o tipo de música que vai fazer o sucesso grande, ou de repente ter que ir atrás de um dinheiro astronômico pra fazer tocar nas rádios… Tem coisas que não fazem mais sentido pra mim”, assume a artista.

Ela também mencionou a enorme pressão que os artistas da música sofrem para estarem sempre no topo das paradas musicais. “Eu vou fazer meu trabalho com criatividade, onde eu tenho meus espaços. Tentar chegar nas pessoas com os espaços que eu tenho e tentar gerar interesse organicamente. Não dá pra viver nessa roda, porque isso não tem fim, vira um ciclo vicioso para o artista. Ele começa a achar que no dia em que ele não estiver em primeiro ele está na merda. Isso é muito ruim para a nossa cabeça, porque não é o que mede a gente”, diz.

“Hoje a gente vive num mundo que, pra você ser um artista, muito é pensado em números, em quantos views você tem, em quantos seguidores você tem. E é uma ilusão gigantesca isso tudo, porque você pode ter 1 milhão de seguidores e na rua ninguém te conhecer ou saber o trabalho que você faz. Pra mim, é a relevância que você faz na vida dos outros que mede o teu sucesso”, avalia a cantora.

E ao ser indagada sobre uma música, que tem tudo para ser hit, mas não recebe o impulsionamento que vem através deste investimento nas rádios, Wanessa diz que é difícil a faixa ir pra frente. “É muito mais difícil, por que como as pessoas vão ouvir? A não ser que elas estejam na sua rede ou que elas vejam em algum destaque de alguma playlist. Demora mais para acontecer, mas pode acontecer”.

E completa: “É um lugar que você tem que tomar decisões o tempo inteiro. Eu já sei a fórmula, já sei como voltar para esse lugar, mas eu estou disposta a estar nesse lugar de novo? Não! Eu não tenho nenhuma vontade de ver meu nome na boca dos fofoqueiros, de gastar rios de dinheiro, quando eu poderia estar fazendo outras coisas que vão trazer benefícios para mim e para as pessoas. Hoje eu quero investir no show que eu vou fazer. Poder trazer um show foda, que vai emocionar as pessoas. Aí eu acho bacana investir”, conclui a cantora.