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INVENCIONISMO

Ator Mario Frias defende fake news de ‘cidade soterrada’ na Amazônia

Ex-Secretário Especial de Cultura do governo Jair Bolsonaro compartilhou teoria da conspiração envolvendo Ratanabá

Danilo ReenlsoberRepórter do EM OFF

Nos últimos dias, uma teoria da conspiração ganhou força nas redes sociais e chegou a ser compartilhada até mesmo por perfis de fofoca no Instagram. A história envolvendo Ratanabá, uma suposta cidade soterrada na Amazônia, não possui absolutamente nenhum lastro na realidade, mas tem conquistado apoiadores, como o ator e ex-Secretário Especial de Cultura do governo Jair Bolsonaro, Mario Frias.

A teoria diz que essa suposta cidade escondida em meio à Floresta Amazônica teria uma série de túneis subterrâneos, com ramificações por toda a América do Sul, e estaria perdida há mais de 450 milhões de anos. Uma das entidades focadas na pesquisa de Ratanabá é a Dakila Pesquisas, presidida por Urandir Fernandes de Oliveira, o mesmo que apresentou o ET Bilú ao mundo em meados dos anos 2010.

Apesar da bizarrice envolvendo toda a história, muitas pessoas parecem realmente acreditar no conto da carochinha, incluindo o ator Mario Frios, apoiador de Jair Bolsonaro. Nesta terça-feira (14), ele postou no seu perfil do Twitter um encontro que teve com Urandir no ano passado, quando ainda atuava como Secretário Especial de Cultura do Governo Federal.

“No dia 11/07/20 enquanto eu estava como Sec. de Cultura, recebi no meu gabinete o Urandir Fernandes de Oliveira que é o Pres. da Associação Dakila Pesquisas, entidade independente que revelou Ratanabá”, escreveu. “Vi diversas fotos de artefatos bem elaborados de metal e de cerâmica encontrados em galerias subterrâneas no Real Forte Príncipe da Beira, no município de Costa Marques (RO)”, disse Frias.

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Ele revelou, ainda, que as pesquisas da Dakila Pesquisas, que não possuem nenhum tipo de embasamento científico sério, receberam apoio do Governo Federal. “Os pesquisadores contaram com o apoio do Exército, do Iphan, das Forças Aéreas, da Defesa Civil, do Ministério da Defesa, entre outros órgãos. Não houveram aportes financeiros do gov.federal, a Dakila utiliza recursos próprios para todas as suas pesquisas”.

No texto publicado, Mario Frias reforça a ideia de que Ratanabá realmente existiu. “As pesquisas da associação indicam q Ratanabá teria sido a capital do mundo há 450 milhões de anos e foi construída pela primeira civilização da Terra, chamada Muril, que não era primitiva”. Os teóricos da conspiração, como Urandir, acreditam que os Muril sejam um povo alienígena, que povoaram a Terra num passado remoto.

Invencionismo

O Ecossistema Dakila, uma organização sem vínculo com universidades e órgãos oficiais de pesquisas, que coordena a Dakila Pesquisas, é também responsável por difundir discurso antivacina e diversas crendices já refutadas. O grupo acredita, por exemplo, que o planeta Terra é plano. Especialistas são enfáticos em dizer que tudo envolvendo Ratanabá não passa de invencionismo.

Ao jornal Estadão, o arqueólogo e pesquisador da região amazônica Eduardo Góes Neves, do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE-USP) , explicou que “nem a América do Sul existia há 450 milhões de anos, quanto mais a Amazônia”. O nosso continente começou a se separar da África há cerca de 220 milhões de anos — antes, os dois formavam um só pedaço de terra, chamado Pangeia.

Por isso, não há nenhum embasamento na arqueologia e na geologia para a existência de Ratanabá. Ainda segundo ele, há 450 milhões de anos, época em que supostamente a tal cidade foi construída, a Terra vivia o período Ordoviciano. O planeta começava a ter seus primeiros animais vertebrados e peixes sem mandíbula. Mas as criaturas dominantes eram os invertebrados marinhos, como os trilobitas.

Alguns vestígios de assentamentos antigos foram encontrados recentemente na região amazônica, mas nada que embase a teoria da cidade perdida. Em um estudo publicado na revista Nature no dia 25 de maio, pesquisadores da Alemanha descreveram a existência de assentamentos humanos datados de um período pré-colonial na região boliviana da Amazônia. De acordo com a pesquisa, os locais foram construídos pela cultura Casarabe, civilização pré-hispânica, entre 500 a 1400 d.C.