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EXCLUSIVO Fernanda Lima não cumpre promessa e ex-produtora trans da Globo passa perrengue

O EM OFF conversou com Bárbara Aires, ex-produtora do programa de Fernanda Lima, que revelou como está dando a volta por cima

Adriel MarquesRepórter do EM OFF

Bárbara Aires, ex-produtora do Amor & Sexo, passa por dificuldades até hoje. O caso da beldade transexual choca muitas pessoas pela repercussão envolvendo a apresentadora Fernanda Lima e a emissora Globo. Em 2017, a demissão da atração global viralizou, já que a produção não manteve uma funcionária LGBTQIA+ em sua equipe. O EM OFF bateu um papo exclusivo com a loira.

Quando deixou a Globo e o Amor & Sexo de Fernanda Lima, a vida de Bárbara Aires virou de ponta cabeça. Morando no Rio de Janeiro, a ativista travesti precisou voltar para a prostituição para se manter. Uma fase que a mesma não deseja a ninguém, quando precisou fazer apelo e pedir ajudar na internet para pagar o aluguel, contas de luz e ter o que comer.

No Amor & Sexo trabalhou por dois anos, entre 2012 e 2013, como consultora e produtora do programa comandado por Fernanda Lima. Quando deixou a profissão no canal recorreu às redes sociais: “Estou desempregada e quero trabalhar. Fui consultora e produtora na Globo, Amor & Sexo, Fantástico e na GNT. [Fui] Assessora parlamentar por três anos. Fiz quatro períodos de Jornalismo, [está] trancado e quero voltar”.

O que mais incomodou e magoou Bárbara Aires ao ser demitida, foi estar presente em uma edição do programa, com Fernanda Lima falando sobre dar um basta no preconceito e aumentar a empregabilidade de pessoas trans no mercado de trabalho. “Quando ela teve a oportunidade de manter uma trans na equipe, ela escolheu demitir”, disparou na época. O EM OFF procurou a profissional do ramo da comunicação, que atua hoje em dia no Instagram, para saber o que mudou e como se sente após toda a polêmica.

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EM OFF: Como surgiu o convite para fazer parte do Amor & Sexo?
Bárbara Aires: Devido meu ativismo no movimento LGBT, especialmente trans, fui convidada a participar da plateia pra falar sobre travestis e transexuais. Gravei outras duas vezes, que não foram ao ar, e após essas participações, uma das produtoras ficou minha amiga e acompanhava minha dificuldade em conseguir trabalho e a vontade em sair da prostituição. O pessoal da produção sempre elogiava muito minhas falas. Me achavam articulada, então surgiu uma vaga de produtora, e me convidaram!

E.O: Qual era sua função no programa? Você se sentia abraçada pela emissora?
B.A: Como não sou jornalista formada, não poderia ser contratada como produtora, então fui contratada como consultora. Mas, tinha atribuições de produtora também. Participava das reuniões de criação, fazia pesquisa de personagens, entrevistava possíveis participantes. Além de orientar em todo conteúdo LGBT. Sim, me sentia abraçada pela emissora sim. Tive nome social e identidade de gênero respeitados o tempo todo. Tinha meu e-mail, mesa, computador. Ia para o Projac quase todo dia. Foi uma época muito feliz.

E.O: Com qual artista do elenco se identificava e por qual motivo?
B.A:
Olha, sendo bem sincera, eu sou super tiete, amo o meio artístico e televisivo. Sou atriz também e sempre sonhei com esse mundo desde criança. Adoro vários artistas, mas me identificar, creio que nenhum. Estamos falando de 2011, ano das minhas participações, e 2012 e 2013, anos que trabalhei no programa. Não sei se foi por ter sido pouco tempo, ou algum distanciamento deles, os artistas no caso, então não consegui me identificar. Era tipo patrão e empregado. Mas eram todos muito educados e simpáticos comigo. Mas, o Otaviano [Costa], por exemplo, me bloqueou no Instagram. Creio que seja porquê o corrigi sobre o uso de uma palavra transfóbica, por duas vezes. Uma vez falei direto com ele e na segunda fiz um vídeo no Facebook, na época. Léo Jaime e Mariana Santos me seguem até hoje.

E.O: Fernanda Lima mantinha um contato direto com você?
B.A:
Não. Só o profissional e estritamente necessário.

E.O: Como foi receber uma promessa em rede nacional e depois ficar desempregada?
B.A: Frustrante, né? Naquele momento, eu depositei ali a minha mudança de vida. Eu ganhava 5x menos que outros funcionários na mesma função, e 10x menos que o valor médio do cargo. Quando fui contratada, eu não tinha noção de salário, e aceitei por entender a importância de ter aquele trabalho no meu currículo. Era uma oportunidade importante, e talvez a única na minha vida. E toda minha conversa com meus chefes era no sentido de eu continuar enquanto tivesse o programa, pois eu executava muito bem minhas funções. E ainda teve essa fala em um programa que fui entrevistada. Eu estava crescendo, tive aumento de salário e ia entrar na faculdade.

E.O: Você guarda mágoas da Globo ou da apresentadora?
B.A: Da Globo, nunca! Nem tenho porquê. Como disse, estava em ascensão na profissão e ia ser contratada como pesquisadora, para não ficar presa somente ao Amor & Sexo e poder trabalhar em outros programas, consultora é um cargo que o programa precisa pedir, a Globo não tem como contratar e indicar. Inclusive, depois, trabalhei na série “Quem Sou Eu” do Fantástico. Já da Fernanda, infelizmente, sim. Óbvio que não gostaria de me sentir assim em relação à ela. Mas preciso ser fiel aos meus sentimentos e minha intuição. O redator final que me contratou saiu do programa e ela assumiu o posto, junto com o assessor dela, e a partir daí eu não fui contratada para as próximas temporadas. Mandei e-mails perguntando sobre a volta, sobre não ter sido chamada, e nunca obtive resposta. Óbvio que acho estranho e não entendo, pois fui uma ótima profissional por 2 anos, elogiada por várias pessoas inclusive. Então, eu não vejo sentido em não ter continuado e até hoje não sei o real motivo. E minha contratação fixa como pesquisadora dependia justamente de estar na próxima temporada, a que ela assinou como redatora final junto com o assessor dela, como consultora. O chefe do RH artístico já havia visto meu trabalho e conversado comigo sobre a troca de função. Teria mudado minha vida pra sempre.

E.O: O que fez para dar a volta por cima?
B.A:
Sinceramente? Nada. Não considero que dei a volta por cima, ainda. Eu simplesmente existi e sobrevivi. Infelizmente, voltei pra prostituição e cheguei a ir pras ruas de novo. Passei privações, fome. Mas além do Fantástico, fiz também as duas temporadas de “Liberdade de Gênero”, do GNT, e em 2017 fui contratada como assessora parlamentar, onde atuei até março de 2020.

E.O: Hoje em dia, quais são os seus planos de vida?
B.A: Com a pandemia, fiquei desempregada e estou investindo no meu Instagram, pra ver se cresço e consigo me tornar uma referência a ponto de monetizar meu conteúdo. Meu capital intelectual e meu trabalho enquanto ativista. Também vou começar a fazer entrega de comida por aplicativo. E adoraria ter uma grande chance como atriz e participar de um reality show. É um formato que admiro muito!

E.O: Existe algum trabalho inesquecível que você guarda com carinho?
B.A:
Todos. A inserção trans no mercado formal é algo tão difícil que cada um se torna inesquecível. Não fosse o início no Amor & Sexo, não teria o Fantástico e a Liberdade de Gênero. Não teria a assessoria parlamentar. Um foi consequência do outro e me trouxeram até aqui. A série do Fantástico virou um livro, “Trans”, da Renata Ceribelli e Bruno Della Latta, lançado esse ano, o qual eu escrevi o prefácio e tem um capítulo contando minha história.

E.O: Qual conselho você daria para alguém do LGBTQIA+ que tenta se enquadrar no mercado de trabalho?
B.A:
Se fortaleça. A luta é árdua! A realidade é dura. As pessoas cis hétero não estão preparadas para lidar com a gente no dia a dia, principalmente com nós trans. A exclusão cotidiana, aquelas transfobias estruturais, ficam muito evidentes. Então, resistência e resiliência são as palavras chaves. Mas, não ultrapasse seu limite. Quando não aguentar mais, desista e descanse. Desistir e descansar também é estratégia de luta.

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