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EXCLUSIVO Isabel Teixeira, a Maria Bruaca de ‘Pantanal’, fala sobre agressões: ‘Não podem passar’

Em entrevista ao EM OFF, a atriz falou sobre a importância de tratar sobre os relacionamentos abusivos

Danilo ReenlsoberRepórter do EM OFF

Quem assiste a novela Pantanal, sucesso do horário das 21h da TV Globo escrito por Bruno Luperi, com certeza já se irritou com as ofensas, agressões verbais e piadas de mal gosto desferidas por Tenório (Murilo Benício) contra a esposa, a qual chama de Maria Bruaca (Isabel Teixeira). A mulher, no entanto, normatiza o relacionamento tóxico, que só é exposto com a chegada da filha, Guta (Julia Dalavia).

É a jovem, que estudou na cidade grande e retornou ao coração do Brasil para ficar próxima aos pais, quem desperta em Maria essa visão de que ela, na verdade, vive um casamento cheio de agressões. “Quando Guta chega é o despertar, mesmo que isso demore. É um processo de reconhecimento de como está vivendo e ‘desnormatização’ daquilo que não é correto”, comentou a atriz Isabel Teixeira. “Não podem passar”.

Em uma entrevista exclusiva ao EM OFF, a artista de 48 anos (38 deles dedicados ao teatro), falou sobre sua passagem pela região do Pantanal, os mistérios que envolvem o local, o desafio de interpretar Maria Bruaca e a importância de tratar de um assunto tão importante – os relacionamentos abusivos – em horário nobre na televisão brasileira.

Formada pela Escola de Arte Dramática de São Paulo, Isabel é filha do músico Renato Teixeira, que recentemente fez uma participação especial no folhetim vivendo a versão mais velha do peão Quim, amigo de Zé Leôncio (Marcos Palmeiras). Antes de Pantanal, a atriz ganhou destaque ao viver a médica Jane, em Amor de Mãe (2019).

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“Abrir esse olhar para as pessoas que estão vivendo algo parecido e que estão aceitando isso porque não conseguem ter uma visão geral para se transformarem, acho que tem um valor inestimável”, disse a artista, que até criou uma conta no Twitter para acompanhar a reação do público à personagem. “Tô adorando as respostas do público, tem sido um presente valioso”, divertiu-se Isabel, que está no Pantanal gravando novas cenas da novela. Confira o bate-papo completo:

EM OFF: O que você aprendeu mais importante durante o período que passou no Pantanal?
Isabel Teixeira: A gente veio pra cá uma primeira vez em novembro do ano passado, tive aqui rapidamente durante dois períodos curtos, e agora um período mais longo, de um mês e meio quase. É uma imersão né, e eu tenho aprendido muito a cada dia, pois é um projeto grandioso, trabalhoso e, ao mesmo tempo, a gente entra na região, nas fazendas, nas locações com muito respeito. A gente tem que respeitar esse lugar, tem que honrar esse lugar e pedir “permissão” à natureza para estar aqui, essa é minha sensação. E nós estamos sendo muito respeitosos com isso, e a gente sabe que o Pantanal é um dos personagens dessa história, então, todo mundo que vem pra cá tem essa reverência ao local, e eu também. Então, o mais importante é aprender a respeitar o ritmo desse local. É um aprendizado de convivência.

Você já conhecia a região? Como foi gravar num local tão importante para a nossa fauna e flora?
Não conhecia o Pantanal e a primeira vez que eu vim eu fiquei muito emocionada. Quando cheguei aqui no ano passado, eu fui gravar no Rio Negro e fiquei impressionada com a força desse lugar… Não sei explicar direito. Não conhecia, mas fiquei encantada com essa força, que é visual, porque tem muitos animais, pássaros, mas sinto também que tem uma força na região e acho isso muito bonito. Está sendo um conhecimento novo. Agora, era um período pro Pantanal estar cheio de água, e a gente sobrevoa a região e a gente vê espaços que deviam estar cheios, secos. Isso é muito impactante. Então, eu penso que a vida me trouxe pra um lugar pra eu ver que existe algo realmente acontecendo com o mundo. Estamos em estado de atenção. Quando a gente mexe com a natureza, isso volta pra gente de alguma forma.

Você chegou a assistir a versão anterior de Pantanal? Fez algum tipo de preparação para viver a Maria Bruaca?
Sim, assisti a versão original. Eu tinha 15 anos na época, vi a novela inteira e quando soube que eu ia fazer a novela, eu assisti novamente todos os capítulos. Acho uma obra-prima a novela como um todo e essa personagem eu reverencio todo dia por ter a oportunidade de representar essa personagem. Acredito que a Ângela Leal, a atriz da primeira versão, contribuiu muito pra criação dessa personagem. Minha preparação foi trazer o clássico pra falar com o presente, com a minha bagagem e estando muito aberta à equipe, à região. Quando eu vi a primeira cena, que tem a trilha da Marília Mendonça, “Deprê”, eu não conhecia a música, então eu fui ouvir e eu passei umas duas semanas ouvindo só Marília Mendonça – e agradecendo a oportunidade de conhecer esse trabalho dela. Então, a preparação nunca está completa, a personagem esta sempre em preparação.

Falando na personagem, ela é alvo de diversas agressões verbais do marido. Você já viveu ou presenciou algo do tipo?
Tenho pensado muito sobre isso, nessa relação da Maria Bruaca com o Tenório [Murilo Benício]. Num primeiro momento, ela era uma menina, Tenório trabalhava pro pai dela, e eles se apaixonaram, mas a família era contra qualquer tipo de aproximação. Ela acaba fugindo com ele, casa numa delegacia… Então, tinha amor ali, paixão. A partir do momento que se casaram, acontece da gente achar que se normatiza algo que não é normal… Acho que foi isso que aconteceu. Acho que a Maria acha normal coisas que não são. Ela não tem referência, nem televisão ela assiste. Então, acaba achando que o mundo é isso. Os dias vão passando e quando a Guta chega é o despertar, mesmo que isso demore. É um processo de reconhecimento de como está vivendo e “desnormatização” daquilo que não é correto. Não pode passar, ela desperta um olhar mais geral.

Esse tipo de agressão é algo, infelizmente, comum no nosso dia a dia. Qual a importância de tratar o assunto em horário nobre?
Sim, é algo muito normal em graus diferentes. Acho que isso estar passando em rede nacional, em horário nobre, pode ser um despertar do olhar de outras pessoas… Até me emociono falando disso, porque é muito forte. Também são situações pequenas, que a gente deixa passar, que podem ser resolvidas numa conversa, que a gente não pode deixar passar. Abrir esse olhar para pessoas que estão vivendo algo parecido e que estão aceitando isso porque não conseguem ter uma visão geral para se transformarem, acho que tem um valor inestimável. É muito importante.

A Maria foi traída pelo marido, que tem uma outra família. Você perdoaria uma traição?
Acho uma pergunta muito difícil… Não sei, depende. Depende do trato que se tinha, do momento que se está vivendo, da história das duas pessoas… As vezes o perdão pode significar o crescimento de duas pessoas e a reformulação do amor… Seria generalizar algo que é muito pessoal, só a gente sabe sobre isso. Traição é dor, e existem milhares de nuances de traições. O perdão também vem com o tempo, ele é um processo de compreensão.

A Maria vive um relacionamento tóxico? Como você acha que as mulheres devem reagir a uma relação dessa natureza?
O termo “tóxico” é muito bom pra gente definir algo que não tá fazendo bem pra gente. Eu sou uma ex-fumante, o fumo é um tóxico grave e demorei pra me curar dele. Então, acho que o autoconhecimento é um caminho para a cura de um relacionamento tóxico. Quando a gente tem consciência do que a gente tá vivendo, é mais fácil decidir que a gente não quer mais. Da Maria é muito difícil, o julgamento tem que ser muito cuidadoso. As vezes, a gente vê que a pessoa está num relacionamento abusivo e a gente culpa a vítima e eu acho delicado. É muito difícil sair de uma hora pra outra de história dessas. Quando se tem consciência, é preciso dar um passo de cada vez, tentando reconstruir esse amor próprio. É um restauro de si próprio. As vezes precisa fugir, falar, denunciar, mas sempre com esse trabalho de restauro.

Nas redes sociais, muita gente comenta sobre a personagem. Como tem sido a reação ao seu trabalho?
Eu sou muito desligada do Twitter e Instagram. Facebook eu nem tenho… Mas entrei no Twitter pra olhar e é uma loucura isso. Eu venho do teatro, então, quando a gente entra em cena no palco, a gente sente a plateia, e pra mim, há 38 anos fazendo teatro, é impressionante como as redes trazem essa resposta do público. E eu acho essa resposta quente, apimentada, com emoção e engraçado. Acho o Twitter engraçado, pode ser violento também, mas tô aprendendo a filtrar as coisas, usar as coisas boas, as críticas construtivas. As pessoas deram um apelido pra ela [Maria Bruaca], chamando de “Mary Bru”, e eu amo esse apelido, tem a hashtag #FreeMaryBru e eu acho isso lindo. Isso tudo também me ajuda na construção do personagem. Parece que eu tô descobrindo uma nova forma de comunicação. Tô adorando as respostas do público, tem sido um presente valioso.