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Jornalismo

Jornalista da CNN revela detalhes de como se infiltrou no Afeganistão

Lourival Sant'Anna contou detalhes de sua nova passagem pelo país sob comando do Talibã

Bruno PintoRepórter do EM OFF

Quando o assunto é Afeganistão, Lourival Sant’Anna tem muitas histórias para contar. Ao todo, foram quatro visitas ao país, sendo a última neste ano, quando o Talibã tomou o poder. Em sua última passagem pelo país, o jornalista presenciou cenas que certamente vão ficar marcadas para sempre em sua memória. De bata e barba grande, Lourival revelou que em meio a guerra e consequentemente o perigo eminente, precisou se “passar por um deles”.

Em entrevista ao portal Notícias da TV, o experiente jornalista analisou o cenário em que estava inserido e contou detalhes do comportamento dos extremistas: “Encontrei a segunda geração de talibãs no poder, e eles são essencialmente iguais à anterior: norteiam todas as suas decisões com justificativa em uma religião que não conhecem, já que são em sua imensa maioria analfabetos e apenas decoraram versos do Alcorão em árabe, que não compreendem. São obcecados pelas aparências, como barbas e véus”.

Mesmo em meio aos momentos de tensão, Lourival estava disposto e decidido a entrar no Afeganistão. Mas, para isso, contou que precisou se desdobrar junto a embaixada do Afeganistão no Paquistão, para conseguir autorização para entrar no país: “Os funcionários ainda são os do governo anterior e, portanto, inimigos do Talibã. O funcionário que me atendeu, da minoria hazara, perseguida pelos grupo, me perguntou se eu estava ciente dos riscos. Expliquei que minha especialidade é cobrir guerras e contei sobre minha carreira”.

O jornalista falou sobre o trajeto que precisou fazer até chegar ao local e revelou ter sido a única pessoa a entrar no país naquele momento: “Percorri então três horas de carro de Islamabad até Peshawar, perto da fronteira, onde passei a noite. Na manhã de sábado, 11 de setembro, quando cruzei a pé o posto de fronteira de Torkham, o funcionário da imigração paquistanesa também me perguntou o motivo pelo qual queria entrar no Afeganistão, quando todos queriam sair de lá, e me avisou: ‘Não é seguro’. Fui a única pessoa a entrar naquela manhã”.

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Lourival disse que ao chegar no Afeganistão, precisou ser acompanhado por um agente do grupo e passou por lugares estranhos, dentro de uma realidade rodeada de muito medo e tensão por todos os cantos: “Do outro lado, fui conduzido por um talibã por um longo corredor coberto e cercado de alambrados, até encontrar um dos meus produtores afegãos, contratados previamente”.

O jornalista disse que os profissionais da imprensa precisam de uma autorização, que custa mais de mil reais, para que possam ingressar: “Ele [talibã] tinha nas mãos a autorização do Escritório do Combatente da Jihad, nova exigência para a entrada de jornalistas, que custou US$ 300 [R$ 1.650]. Fomos levados por outro talibã para uma sala ampla, com muitos buquês de rosas artificiais felicitando-os pela tomada do poder”.

Lourival contou que passou por várias blitz durante o percurso: “Segui em outro carro, com o produtor, motorista e segurança pelas cinco horas de estrada entre Torkham e Cabul. Passamos por cinco postos de controle dos talibãs sem sermos parados. Só fomos parados na entrada de Cabul e o guarda perguntou se queríamos tomar chá ou almoçar com eles. Não percebeu que era estrangeiro, nem jornalista”.

O jornalista e analista da CNN Brasil disse que gosta de entrar fundo naquilo que faz e, para isso, usou vestimentas adequadas e deixou a barba crescer para se “tonar um deles”: “Eu estava sentado na frente, e concluí que tinha valido a pena deixar a barba crescer e vestir a bata, chamada de kamiz, usada pelos homens locais: estava me fazendo passar por um deles. Como medida de segurança e também como de trabalho, procuro me misturar às pessoas locais em todas as minhas coberturas”.